04-04-2010 Pesquisa em oncologia



Resultados conflitantes sobre a relação entre telefones celulares e câncer



Dados de uma metanálise recente chamaram a atenção novamente para a controversa questão sobre se o uso do telefone celular elevaria a incidência do tumor cerebral. De acordo com o médico Michael J. Thun, vice-presidente emérito do Departamento de Pesquisa e Epidemiologia da Sociedade Americana de Câncer, os telefones celulares são utilizados atualmente em todo o mundo por mais de 3 bilhões de pessoas, inclusive por crianças.

Aproximadamente 30 estudos epidemiológicos observaram a possível relação entre os telefones celulares e os tumores cerebrais malignos e benignos, assim como o neuroma acústico e os tumores de glândula salivar. Embora a maioria deles não tenha apontado associações significativas entre o uso do aparelho e as doenças, alguns oferecem informações significativas. Quase toda a evidência disponível é proveniente de estudos caso-controle com menos de 20 anos de seguimento, desde a introdução do telefone celular no mercado.

Portanto, esses estudos possuem algumas limitações metodológicas. As duas maiores limitações são que a informação sobre o uso de telefone celular é obtida retrospectivamente por meio de indivíduos já previamente diagnosticados com câncer. Além disso, a participação nos estudos foi notavelmente menor entre os controles comparados com os casos.

Dúvidas sobre a evidência somente podem ser resolvidas por meio de um seguimento epidemiológico a longo termo e por uma avaliação crítica de estudos experimentais que relatam os efeitos biológicos dos telefones celulares. A metanálise é uma ferramenta estatística importante, pois combina resultados de diversos estudos. Entretanto, as conclusões estão sujeitas às mesmas limitações metodológicas a que os próprios estudos estão e podem ser influenciadas por suposições e escolhas sobre o modo como os dados são coletados e analisados. Até outubro de 2009, dentre as quatro metanálises encontradas na literatura sobre o tema, apenas uma identificou relação entre o uso do telefone celular e o tumor cerebral.

A metanálise mais recente foi conduzida por pesquisadores de diversas instituições sul-coreanas, incluindo o National Cancer Center, em Goyang, Ewha Womans University, em Seoul, National University Hospital, em Seoul, além da University of California, em Berkeley. Os resultados foram publicados no Journal of Clinical Oncology (epub ahead of print on October 13, 2009; DOI: 10.1200/JCO.2008.21.6366).

Dr. Seung-Kwon Myung, investigador principal, e seus colaboradores relataram que não foi identificada associação global para os resultados combinados de 23 estudos relevantes, mas eles encontraram um risco elevado estatisticamente significativo
de 9%, quando a metanálise estava limitada aos 10 estudos que os autores classificaram como low bias (baixa tendência), e um risco inferior, mas significativo, de 15% para dados de estudos remanescentes nomeados de high bias (alta tendência).

Ao interpretar esses dados, Dr. Thun observou que é importante destacar que esta metanálise estava limitada a estudos de caso-controle. O maior estudo de telefones celulares e risco de câncer publicado até hoje é um estudo de amostra, com um desenho mais propenso às tendências, que atrapalham os estudos de caso-controle, mas também com um seguimento menor do que os
últimos estudos publicados com caso-controle. O estudo de amostra não encontrou risco excessivo de câncer entre os usuários de telefone celular. Todos os estudos em que os pesquisadores que entrevistaram os sujeitos foram “cegos” ao seu status de caso ou de controle pertencem a um único grupo na Suécia. Estes estudos mostram coletivamente um excesso significativamente estatístico de 17% para o risco de tumor cerebral. Os 15 estudos remanescentes indicaram redução de risco não significativa de 2%.

Outra questão central é se o critério usado pelos pesquisadores para selecionar estudos de alta qualidade e sua ênfase nos entrevistadores cegos foi apropriado. Dr. Thun também diz que alguns estudos importantes ainda não foram publicados, como os resultados combinados do Interphone, um grande estudo sobre o uso do telefone celular e tumores cerebrais, realizado em 13 países sob a supervisão da International Agency for Research on Cancer (IARC, departamento da Organização Mundial de Saúde). Segundo nota publicada em maio de 2009, na homepage do IARC, os resultados do estudo já foram submetidos a uma publicação científica e em breve estarão disponíveis.

Esse estudo foi criticado porque os resultados prévios indicaram que o uso do celular está associado com risco reduzido para tumor cerebral e porque foi financiado por uma indústria de telecomunicações. Entretanto, o maior número de usuários de celular entre os controles do que entre os casos provavelmente refletiu em um índice menor de participação entre os controles do que entre os casos (e uma probabilidade maior de controles que usaram telefone celular participariam do estudo). Embora o estudo tenha sido financiado por uma indústria de telecomunicação, ele foi conduzido por um comitê de cientistas que não faziam parte do quadro de funcionários da indústria.

Uma preocupação que existe sobre o uso de aparelho celular é que o período de indução para muitos carcinogênicos é longo e o efeito adverso sobre o câncer pode surgir apenas muitas décadas após o seguimento. Isso não explica porque os estudos de caso-controle realizados na Suécia estão relatando risco elevado após 10 a 15 anos de uso. Outra preocupação é que as crianças podem ser mais suscetíveis do que os adultos. Dados epidemiológicos atuais não podem ignorar essa preocupação, em função do seguimento limitado, principalmente para as crianças. Por outro lado, celulares não produzem radiação ionizada, e os relatórios de outros efeitos biológicos dos telefones celulares que poderiam produzir carciogênese ainda não foram replicados.

Ainda não existe uma tradição regulatória nos Estados Unidos que exija mudanças nos produtos ou que recomende hábitos aos consumidores com base em evidências científicas fracas. Entretanto, aqueles que se preocupam quanto à exposição a campos eletromagnéticos provenientes de celulares podem virtualmente eliminar esta exposição ao utilizarem ferramentas que situam a
antena do aparelho longe da sua cabeça e podem, ainda, limitar o uso do aparelho por suas crianças.

Fonte: CA. Cancer J Clin. 2009; 60:5-6.