16-04-2010 De médico a paciente
Anticâncer, a superação de onde menos se espera
Quando o médico torna-se um paciente, a busca pela compreensão dos caminhos que percorre a sua doença torna-se ainda mais desafiadora do que quando ele age unicamente com o faro profissional. Ele passa a procurar por respostas que inquietam o seu âmago, pois o que está em jogo é a sua própria vida.
Foi assim que começou a jornada do Dr. David Servan-Schreiber. Filho do notório jornalista e político francês Jean Jacques Servan-Schreiber, ele deixou a França rumo a Montreal para estudar, e então seguiu para a Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos (onde está até hoje). Lá ele iniciou suas pesquisas no campo da psiquiatria e das neurociências.
Certo dia, um dos sujeitos do estudo que conduzia não compareceu para um exame de ressonância magnética, então o próprio Dr. Servan-Schreiber decidiu substituí-lo. Como uma das piores ironias do destino, o exame diagnosticou um tumor cerebral do tamanho de uma noz.
Pouco tempo depois o médico foi submetido a uma cirurgia para a remoção do tumor e voltou para a sua rotina habitual, composta de um alto nível de estresse em razão da sua elevada carga de trabalho, pouca atividade física e alimentação precária, constituída primariamente por junk food. Cinco anos se passaram e o tumor rescindiu. Foi necessária uma nova cirurgia seguida por sessões de quimioterapia.
Neste período, Dr. Servan Schreiber teve a oportunidade de refletir sobre a sua vida e também sobre as possíveis causas da recidiva. Foi na alimentação que ele vislumbrou umapossibilidade para sua cura. Mas, como? Ele teria de desintoxicar seu organismo. Para isso, ele parou de comer carne vermelha, farinha branca e de ingerir refrigerantes.
A partir de então, ele rumou a infindáveis pesquisas em torno da imunobiologia do câncer, em que as células ruins podem ser “adestradas” por meio de manipulações do ambiente.
Desse modo, encontramos em nossa própria cozinha e despensa os principais ingredientes para a prevenção, para o controle e, até, quem sabe, para a cura do câncer. Os tão falados antioxidantes, as gorduras boas, os grãos e o chá-verde, formam a combinação essencial para manter e evitar essa temida doença.
Uma reportagem do jornal americano The New York Times (publicada em outubro de 2008) conta a história de Lenny, um americano que sobreviveu por quatro anos e meio a um câncer no pâncreas ao adotar uma dieta restritiva baseada em repolho, frutas silvestres e chocolate amargo.
Eles mencionam também o caso de ratos que, ao serem alimentados apenas com vegetais, tornam-se mais ativos e curiosos, além de desenvolverem tumores que crescem em progressão mais lenta do que os de seus irmãos, alimentados com uma dieta regular.
Assim comportou-se o organismo de Dr. Servan-Schreiber, que apresentou uma ótima resposta às suas mudanças comportamentais; atualmente, 16 anos após o seu diagnóstico inicial de tumor cerebral, encontra-se muito bem e divulgando o seu “algoritmo” da boa saúde.
Para cada alimento que o médico recomenda, ele tem justificativas pautadas em evidências científicas, geralmente pesquisas realizadas em culturas de células, estudos feitos em ratos com câncer, ou ocasionalmente provenientes de estudos menores feitos com seres humanos. Contudo, nenhum deles possui evidências suficientes que justificariam o lançamento de uma nova droga.
Extratos de alho, cebola e alho-poró, por exemplo, são capazes de destruir todos os tipos de células cancerígenas em uma cultura celular. Se esses vegetais continuam ativos no corpo humano depois de ingeridos, quando milhares de processos celulares estão ocorrendo concomitantemente, surge outra questão: uma vez que o alho-poró é mastigado, engolido e digerido pelas enzimas intestinais e absorvido pelo sangue, como suas moléculas conseguem combater uma célula cancerígena, ou, ainda, se
unirem para essa batalha? Ninguém ainda foi capaz de responder.
Dr. Servan-Schreiber admite que ainda há muito para ser descoberto sobre o quanto os vegetais são poderosos. Inclusive, na vasta e diversificada flora brasileira. O médico falou à revista Chymion sobre as suas crenças enquanto médico, pesquisador e também paciente oncológico, assim como o que aprendeu acerca do correto aproveitamento dos nutrientes
dos alimentos. Vejamos.
Chymion – O senhor acredita que a medicina baseada no poder dos alimentos é uma tendência para o futuro?
David Servan-Schreiber – O futuro da medicina é ajudar cada pessoa a otimizar o potencial da sua saúde, não apenas para limitar-se a tratar o sintoma ou mesmo um tumor. E o único caminho para maximizar a saúde é oferecendo apoio e fortalecendo os mecanismosde balanço do organismo. Consegue-se isso de uma melhor forma por meio de intervenções naturais como com alimentação, atividades físicas e uma mente saudável.
Chymion – A proposta de não mais consumir carne vermelha, farinha branca e refrigerante pode ser benéfica a qualquer indivíduo que se proponha a segui-la exatamente como o senhor fez?
David Servan-Schreiber – Eu pautei a minha proposta (para mim mesmo e para os outros) em evidências científicas sólidas. Sabemos que aquelas pessoas que seguem um tipo específico de dieta, que são fisicamente ativas (praticam caminhadas, por exemplo) e que aprendem a ser mais felizes e
menos estressadas em suas vidas apresentam respostas médicas melhores e superiores. Nós estamos observando atualmente os primeiros grandes estudos que mostram que isso pode reduzir a mortalidade decorrente do câncer em quase 70%.
Chymion – Como o estilo de vida e a personalidade podem influenciar no desenvolvimento dos tumores?
David Servan-Schreiber – O estilo de vida contribui ao menos para 85% dos cânceres. Os fatores psicológicos desempenham um papel menor do que o tabaco ou a dieta ocidental, mas eles também exercem certa influência. Não é o estresse por si só que pode ajudar o câncer a crescer, mas, de preferência, a resposta do indivíduo ao estresse. As pessoas que desenvolvem um senso
crônico de desesperança parecem pertencer a um grupo de risco maior para
a progressão do seu tumor.
Chymion – Por que alguns tumores rescindem?
David Servan-Schreiber – Faz parte da natureza dos cânceres rescindirem. A razão principal para que isso ocorra é porque nós (ou os nossos pacientes) falhamos em criar dentro de nós mesmos um “terreno” – cuja biologia é específica – que desacelera o crescimento das células cancerígenas e oferece uma chance melhor para que as nossas defesas naturais mantenham o câncer sob constante vigília durante o tratamento.
Chymion – A flora brasileira é muito rica e diversa. O senhor saberia dizer como os nossos alimentos podem auxiliar os pacientes no tratamento do câncer?
David Servan-Schreiber – Existe vasta fonte inexplorada de conhecimento sobre como as plantas podem desacelerar o crescimento do câncer ou até aniquilar as células cancerígenas. O Brasil pode estar na vanguarda dessa nova ciência que busca compreender como as combinações dos fitomedicamentos (agentes derivados das plantas) podem contribuir para melhorar a prevenção e o tratamento do câncer.
Chymion – O que o senhor procura ensinar aos seus alunos, na Universidade de Pittsburgh, onde leciona, acerca da delicada relação com os pacientes oncológicos?
David Servan-Schreiber – Eu os ensino a fortalecer o “terreno” (a própria biologia anticâncer do paciente, individual de cada um) por meio de intervenções no estilo de vida, ao mesmo tempo em que eles tratam do tumor com os medicamentos e técnicas mais modernos que estiverem disponíveis.
Chymion – Como os oncologistas, acostumados aos tratamentos medicamentosos, podem se beneficiar das teorias naturalistas que você apregoa em seu livro em prol dos pacientes?
David Servan-Schreiber – Tudo o que eu proponho em meu livro pode e deve ser combinado aos melhores e mais modernos tratamentos oncológicos para ajudar nossos pacientes. Não há absolutamente oposição entre ambos. Na verdade, algumas intervenções podem aumentar os benefícios para tratamentos específicos. Por exemplo, beber entre 3 e 6 copos de chá-verde por dia pode otimizar os benefícios da radioterapia.
Chymion – O senhor aprendeu alguma lição inesquecível com um dos seus pacientes?
David Servan-Schreiber – Sim, foi com um jovem rapaz que já havia sido um ciclista, mas que passou a maior parte da sua vida adulta como um drogadito. Ele morreu em virtude de um tumor cerebral similar ao que eu tive. Ele tinha cerca de 30 anos e começou a valorizar a sua vida justamente nos últimos meses antes de falecer. Foi quando ele tornou-se um voluntário na igreja para construir um sistema de ar-condicionado. Em seu leito de morte, suas últimas palavras para mim foram que ele estava muito grato, pois sua vida havia sido “salva”. Ele me mostrou que nós todos temos o poder de dar sentido às nossas vidas, ainda que seja no finzinho dela.
Fontes consultadas
Servan-Schreiber D. Anticâncer – prevenir e vencer
usando nossas defesas naturais. Rio de
Janeiro: Objetiva; 2008.
Zuger A. Between covers, an anticancer infomercial.
The New York Times. Publicado em
06/10/2008. Acessado em 25/09/2009.
www.nytimes.com/2008/10/07/health/ 07book.
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